domingo, 6 de março de 2016

CORRUPÇÃO, ANTIRREPUBLICANISMO E DESESPERANÇA NO SISTEMA POLÍTICO BRASILEIRO


Saulo H. S. Silva[1]


[Detail from Corrupt Legislation (1896) by Elihu Vedder. Library of Congress Thomas Jefferson Building, Washington, D.C.]

      Quando pensamos em política e falamos de corrupção, não devemos compreender apenas os desvios de dinheiro. O problema é muito mais grave! Na verdade, é como se houvesse um éthos da corrupção; em outras palavras, um costume social abjeto generalizado na sociedade. Se essa orientação está correta, os veículos de comunicação sempre serão utilizados como aparelhos ideológicos promotores da parcialidade. O sistema econômico e o sistema financeiro também farão parte dessa prática degenerada ao compreender a política como um grande negócio, no qual devem fazer apostas bem precisas para continuar obtendo lucros e dividendos. Sendo um éthos generalizado, é obvio que a política estará afundada em relações dessa natureza porque este é o caráter da coisa. Ora, em um cenário dessa natureza, onde os valores estão invertidos, a desesperança é inevitável e a luz no fim do túnel cada vez mais é ofuscada pelos sucessivos escândalos.  
Infelizmente, o Partido dos Trabalhadores (PT) não tentou mudar esse éthos, apesar de ter defendido a virtude moral (êthos) na política por tanto tempo. São razões inexoráveis que têm possibilitado essa conclusão. Pessoas de caráter ignóbil foram alçadas ao alto escalão do partido, como o próprio sicofanta Delcídio do Amaral, ex-líder do PT no Senado. Além disso, foram realizados acordos horrendos com gente da estirpe de Paulo Maluf e Fernando Collor. O partido se rendeu ao sistema político e empresarial brasileiro, o mesmo que por tanto tempo perseguiu o próprio Lula e o PT. Suponho que, nesse enredo todo, a cúpula dos governos petistas acreditou piamente que poderia continuar no poder prestando favores aos grandes e acenando ao povo para torná-lo cada vez mais pacífico. O povo quer muito pouco, basta não oprimi-los e eles sempre manterão uma grande fidelidade, mas os grandes .... Esses são difíceis. Pois, mesmo com todas as concessões feitas pelo PT ao grande sistema, — não esqueçam que enquanto os salários dos trabalhadores são achatados por impostos e inflação, os banqueiros vêm tendo recordes de arrecadação — os grandes desejam oprimir o povo e nunca engoliram o governo de acenos do PT. Como Maquiavel já dizia, "não se pode satisfazer honestamente aos grandes [...]". Dessa forma, enquanto a desprezível política de conciliação de classes estava sendo implementada a todo vapor, os trabalhadores em geral esperavam mais do PT. Ao menos uma tentativa de mudança verdadeira nas estruturas do poder. No entanto, ficaram as migalhas das bolsas sociais e do maior acesso à universidade, entre outras coisas que, mesmo importantes, são inúteis para provocar as verdadeiras transformações.
[A aliança do PT com o PP de Paulo Maluf na disputa eleitoral de São Paulo (2012),
 representa uma contradição à postura histórica do partido]
Se não bastasse esse envolvimento do Partido dos Trabalhadores com aquele sistema deplorável, sempre combatido pelo próprio partido antes de assumir o governo federal, o que chamou a atenção nas reações dos defensores de Lula e do governo fora a ênfase em um argumento antirrepublicano. Intelectuais, artistas e gente menos conhecida desenvolveram uma espécie de republicanismo seletivo inaceitável, cuja premissa basilar era a de que um ex-presidente não deveria ser tratado daquela maneira desrespeitosa. Ou seja, um ex-presidente é mais cidadão que um cidadão que não foi presidente. Assim, está aberto o precedente para o estabelecimento de distinções sociais fundamentadas na importância do cargo ocupado. Nada mais antirrepublicano que a defesa de uma república seletiva. Para as diversas pessoas que argumentaram dessa maneira, é preciso esclarecer que os ditos direitos civis dos brasileiros já foram esquecidos há muito tempo. Diria mais, eles nunca existiram para a grande parcela da população. Perguntem ao povo pobre das periferias do Brasil! Quando a característica basilar de um regime efetivamente republicano corresponde à igualdade de todos perante a lei, a maneira como a condução coercitiva de Lula pela Polícia Federal foi combatida constituiu-se em uma verdadeira hipocrisia. Precisamente, é essa espécie de ideologia fraudulenta que tem aumentado a desesperança do cidadão com os ventos que têm conduzido o país.     
Por fim, é evidente que existe uma parcialidade na justiça brasileira quando o assunto envolve a corrupção política. Está claro que outros casos igualmente graves não têm a mesma atenção da justiça e da mídia, como ocorre quando os desmandos são cometidos por gente ligada ao Partido dos Trabalhadores. Talvez por isso, tenho visto tanta declaração contra a mídia e a oposição política golpista. Muita gente bem intencionada tem compreendido nesse imbróglio a repetição da história. De fato, é possível que a história esteja a se repetir. Mas, para que não retornemos de maneira indefinida, se faz necessário solapar as bases desse círculo histórico abjeto. E foi justamente isso que os governos capitaneados pelo PT nunca tentaram fazer.



[1] Doutor em Filosofia Política, Pós-doutorando em Filosofia pela USP. Professor do Colégio de Aplicação da UFS. Em 2014 lançou o livro Tolerância civil e religiosa em John Locke (EDUFS).

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