segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

RETÓRICA FRÁGIL E DEMOCRACIA NO BRASIL


Saulo H. S. Silva[1]



        O conhecimento acerca da natureza política e social da vida humana possui uma particularidade que outras áreas do saber não possuem. Seu objeto é como uma peça teatral onde os atores são simultaneamente os espectadores. Cada espectador assimila a realidade política de uma determinada maneira e essa forma de absorção influencia o seu modo de agir. Por sua vez, a totalidade das perspectivas de todos os espectadores de uma sociedade política está fracionada em diferentes níveis de consciência e interação com a realidade objetiva. No Brasil, a discrepância entre os níveis de consciência política está refletida nos debates das opiniões difundidos pelos veículos de comunicação e redes sociais. É nesse cenário que as tentativas de universalizar determinadas (des) informações, por meio do apelo midiático ao público mais inocente, sufocam toda dissidência, rompem com a veracidade do discurso e acabam por fazer ruir a própria possibilidade da democracia.  
     Se desejardes compreender as questões políticas de seu tempo por meio de um olhar mais razoável e menos propício às alucinações de certos discursos, tenha sempre em mente que a política real, no alvoroço de sua contínua efetivação, também deve ser compreendida tendo em vista os atos de fala presentes nos argumentos dos participantes desse grande teatro. A política efetiva é como uma trama cujo enredo se desenvolve por meio da atuação de todos os tipos de atores e espectadores; alguns são mais habilidosos, outros mais honestos e muitos não sabem o que são. Nas repúblicas democráticas e liberais, onde o conceito de cidadania é a exaltação da individualidade e a fragmentação da consciência moral, o problema se instaura justamente nas personagens que não realizaram completamente o ideal de individuação e análise crítica da realidade. Tais personagens são as mais propícias às vicissitudes do discurso falso. Consequentemente, esse ator-espectador assimila e difunde uma determinada opinião política, ou de repercussão social, usando uma linguagem vaga e mal formulada a qual poderíamos denominar de retórica frágil. Dessa forma, a razoabilidade do discurso se esvazia e todo debate é nivelado à balança do senso comum, que tem um caráter massificador.
      Em A democracia contra ela mesma (2002), o filósofo francês Marcel Gauchet tem defendido que “a privatização [...] caminha junto com uma massificação dos comportamentos e dos modos de vida. Os direitos do homem, de um lado, mas nada de sujeito autônomo do outro lado para exercê-los: tal parece ser a fórmula, na direção da qual se dirigem nossas sociedades” (2009, p. 53). A massificação da retórica frágil em uma sociedade que deveria ser regida pelo pulular de individualidades não seria um modo pelo qual a democracia acaba por sabotar a si mesma? Sobre essa questão, é razoável responder que a imposição do discurso falso desempenha um papel importante no aprofundamento da corrupção entre os cidadãos, para os quais as virtudes políticas passam a ser compreendidas como uma façon de parler [maneira de falar]­. No contexto político brasileiro, os sintomas dessa fragilização semântica são facilmente identificados quando os diversos casos de corrupção que têm seguidamente desestabilizado a república são justificados pelos porta-vozes do governo fazendo uso do discurso divorciados da realidade. Assim, o ato de fala nunca é performativo porque não se impõe na realidade haja vista a ação ordinária já anular a fala, e vice-versa. Quando essa situação ganha o relevo de um fenômeno de massa alimentado por aparelhos ideológicos responsáveis pela imposição dos falsos discursos, a crise derivada da massificação da opinião mal formulada corresponde à degeneração da própria sociedade democrática. 
    Um exemplo dessa retórica frágil diz respeito à querela entre os apoiadores do governo da Presidente Dilma Rousseff (PT) e a crítica oposicionista oriunda de setores mais conservadores da sociedade e de membros do próprio governo. Frequentemente, os sujeitos que participam desse enredo têm elencado argumentos divorciados da realidade, mas por serem repetidamente difundidos por certos aparelhos ideológicos ou pessoas mais qualificadas acabam por abusar da ignorância de muitos. Insistentemente, a oposição acusa o governo do PT de promover a usurpação do patrimônio público em casos e mais casos de fraudes, mensalões, lobbys, pedaladas... Ao passo que, por deixar de levar em conta os diversos casos de corrupção, de liquidação desse mesmo patrimônio durante a administração de partidos da oposição capitaneados pelo PSDB, DEM e parte do PMDB, essa oposição pragmática fornece os elementos para a contra-argumentação dos defensores do governo. Se esses fatos fossem transformados em demonstração geométrica, o conjunto representando a verdade estaria vazio. As premissas de ambos os discursos não formam um silogismo válido porque o termo médio se repete na conclusão; dos dois lados existem casos de corrupção e esse fato torna a disputa uma mera querela para saber quem levou a cabo e quem continuou os desmandos. E o final de 2015 ainda revela outras lições da retórica frágil. Inicialmente, com a informação de que o líder do PT no Senado, preso recentemente, na verdade era tucano. Caso espantoso de dupla filiação! Do mesmo modo, os discursos de sequazes do governo sobre a importância do PMDB para a governabilidade tende a escamotear o fato do próprio PMDB trabalhar para destituir a presidente e tomar para si, não só o Parlamento e a maioria dos ministros, como também a própria titularidade da presidência.  
     Com efeito, da mesma forma que os meios de comunicação deste século têm possibilitado uma verdadeira revolução no que concerne à democratização da divulgação de informações, esses mesmos meios de comunicação promovem a imposição do discurso mais frágil, do gosto mais dúbio. Por conta disso, devemos desconfiar da afirmação de Aristóteles segundo a qual “na maioria das vezes um grupo julga melhor que uma única pessoa” (Política, 1286b). Um modelo que combina a discrepância da consciência política com a constante tentativa de impor opiniões por meio de argumentos vulgares não poderia deixar de fornecer os elementos para a perpetuação da desigualdade. E apesar da retórica frágil não estar limitada a uma classe social, a constante acentuação das desigualdades no atual nível do capitalismo brasileiro, cuja moda é fechar escolas públicas, sempre arrebentará a corda do lado mais fraco e a razão mais frágil, em suas diversas facetas, mais facilmente será imposta como a verdade de fato. 

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