quarta-feira, 10 de setembro de 2014

A HORA E A VEZ DOS EVANGÉLICOS?


Por, Antônio Carlos dos Santos  
(Professor de Ética e Filosofia Política do DFL)



        Tudo leva a crer que se converter às religiões de matriz evangélica, na vertente pentecostal e neo pentecostal, virou moda no Brasil. Segundo o IBGE, a partir do senso 2010, um, em cada cinco brasileiros, é evangélico. Este crescimento se reflete na mudança da paisagem religiosa nas cidades brasileiras e nas atitudes de seus adeptos: grandes catedrais pentecostais estratégica e geograficamente bem notáveis, templos religiosos luxuosos, marchas com Jesus, músicas gospel de toda sorte, shows de conversões de artistas, invasão de círculos bíblicos em universidades (redutos, até bem pouco tempo, de pessoas reticentes à religião). Tudo virou espetáculo religioso para ninguém por defeito. Mas, talvez oque há de mais destacável é o “pré-domínio” dos evangélicos na mídia: TVs, rádios, gravadoras, jornais impressos e online. Nenhum meio de comunicação deixa de passar pelo crivo da marca dos evangélicos.
      Se partirmos do pressuposto de que a religião é um conforto da alma, podemos nos perguntar: toda essa gama de veículos da fé contribuiu para que as pessoas se tornassem melhores? No trânsito, por exemplo, elas passaram a ser mais cordiais? As mensagens radiofônicas deixaram os ouvintes mais amorosos e pacíficos? A profusão de evangélico nos presídios, nas favelas, nos lugares mais difíceis do país levou a uma melhoria das condições de vida dessas pessoas? Com tanta religiosidade, houve uma diminuição nos índices de violência, de assalto, estupros, assassinatos? No fundo, a pergunta que não quer calar é: a religião torna alguém melhor como humano? Se a moda é virar evangélico, o que de bom repercute na vida da cidade? Assim, o objetivo deste texto é pensar a relação entre o avanço dos evangélicos e a repercussão disso na vida coletiva, especialmente do ponto de vista político.
       Desde o século XVII, há uma enorme discussão na filosofia sobre o papel da religião na sociedade. Embora este debate perdure até hoje, por questões de espaço, fiquemos nesse período apenas como exemplo. Há dois grupos que divergem peremptoriamente sobre essa temática. A primeira vertente, de matriz inglesa, defende a ideia segundo a qual a religião é fonte de moralidade e por isso extremamente importante para a vida da sociedade e, de modo particular,para o indivíduo. Locke, por exemplo, no livro “Pensamentos sobre a educação”, recomenda insistentemente aos pais que imprimam na mente das crianças “uma verdadeira noção de Deus, como o Ser Supremo independente, Autor e Criador de todas as coisas, de quem recebemos todo o nosso bem, que nos ama e nos concebe todas as coisas”(AP§136). A segunda vertente, de origem francesa, defende a ideia segundo a qual a religião não é fonte de moralidade para o ser humano e, por isso mesmo, uma sociedade ateia seria bem mais verdadeira do que uma religiosa. Pierre Bayle, autor de numerosas obras, dentre as quais, “Comentário filosófico”, sustenta que um ateu é mais verdadeiro do que um crente. Segundo ele, o crente age pensando em recompensas futuras. Sua mentalidade é como a de um agiota:só conta as vantagens monetárias nesta vida para se atingir o retorno pós-morte, o lugar no céu. Ora, o ateu, como não acredita em céu, paraíso ou inferno, age pelo dever mesmo de cumprir sua ação moral. Sua ação é pautada em valores e deveres socialmente imperativos para o bem do outro e de si mesmo, sem recompensas futuras. O que nos salva,registra Bayle, é nossa virtude moral, não religiosa.
    Historicamente, o pentecostalismo se caracterizou, grosso modo, pelas diferentes perspectivas teológica e organizacional que dão ênfase na experiência direta e pessoal de Deus através do batismo no Espírito Santo. O neo pentecostalismo é a radicalização dessa experiência, de matriz americana, que envolve, por um lado, a Igreja Católica via a Renovação Carismática, e, por outro lado, a Universal, a Quadrangular, a Renascer, dentre outras. Seja de uma vertente seja de outra, a religião é reduzida ao entusiasmo, ao emocional, ao ascetismo cego, à efusão domisticismo baseado em curas, milagres, exortações. Nestas condições, o crente se reduz a um escravo do subjetivismo.Por essa razão, o pastor, ao solicitar ao crente tudo o que ele tenha, inclusive seu cartão de banco com a senha, é natural que ele o faça, pois assim estar-se-ia provando sua submissão à fé e, consequentemente, à religião e ao pastor. A estratégia usada pelos pastores todos nós sabemos: jogar com o medo e a esperança. O medo da perda de bens incertos e a possibilidades de alcançar a plenitude num futuro para lá de imaginário.
     Ora, muitas dessas religiões, no fundo, funcionam como empresas. Elas trabalham com um produto, a comunicação,cujo fim último é aumentar sua renda ao máximo. O conteúdo religioso é o mínimo e o que menos importa. Para isso,cada pastor tem a sua cota mensal a ser atingida e quem não a cumpre é vivamente repreendido pela organização. Para que o trabalho seja orquestrado, ela vinculam as atividades: a gravadora “vende” determinados cantores, que por sua vez, esses cantores estão conectados a certos pastores, que por sua vez estão ligados a certos grupos políticos, cujos partidos vendem a alma ao diabo esperando a redenção divina. Não é à toa que a Frente Parlamentar de Evangélicos é um grupo fechado, coeso, que tem enorme peso no Congresso Nacional. Com o fito de conseguir concessões de TV e rádio, por exemplo, trocam o voto pela matéria barganhada. É verdade que há restrições. Nem tudo é vendável: temas como os direitos humanos é bandeira moral e, portanto, fora da barganha. Esse tema é supostamente prerrogativa deles, que é uma questão grave do ponto de vista político. Os evangélicos no Congresso rebaixam toda a discussão de política pública à questões morais ou comportamentais e, por isso, religiosas, transformando-as em matéria de fé. Em poucas palavras, transforma o debate político numa agenda conservadora e moralizante. Há aqui, uma diminuição do espaço da política, que deve ser publico e laico. E quando são criticados por isso, argumentam que estão sofrendo perseguição. Ora, haveria maior dano à política do que ditar normas religiosas à vida pública?
    Ora, nós nascemos animais. E, da pior espécie. O que faz com que saíamos da animalidade e passemos à humanidade é justamente a ética, que depende do grau de educação que recebemos. O que torna alguém melhor como pessoa é a educação que ela adquire ao longo da vida. Essa educação pode até ser religiosa, mas se ela não refletir em bondade, se ela não for traduzida em ações que tornem a pessoa melhor, nada adianta tanta educação ou religiosidade. A duras penas, conquistamos a separação entre a religião e a política no século XVII: a religião se ocupa da alma; a política, da vida pública. A primeira serve, no máximo, como moral; a segunda, como organização da vida coletiva. Foi graças a esta separação que conseguimos estancar guerras religiosas que manchavam de sangue a Europa e que, infelizmente, ainda hoje, é motivo de morte mundo a fora. Não seria melhor preservar esta conquista? Os evangélicos estão tendo maior espaço na sociedade, e isso pode ser positivo, mas daí a ditar norma religiosa na política, confundindo o espaço da religião, que deve ser privado, com o da política, que é público, isso não podemos permitir.

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