segunda-feira, 1 de outubro de 2012

RELIGIÃO, MORALIDADE E TOLERÂNCIA EM JOHN LOCKE




O texto abaixo é parte da pesquisa que desenvolvo sobre a filosofia da religião de John Locke. Publicamos aqui uma pequena mostra em referência ao VII Congresso Latino-Americano sobre Ciência e Religião, organizado pela PUC Rio e pela University of Oxford entre os dias 02-04/10/2012,  na cidade do Rio de Janeiro. 



Saulo Henrique Souza Silva

Parece-me que a própria religião natural se enfraquece extremamente na Inglaterra. Muitos julgam, as almas corporais, outros acham que o próprio Deus é corporal. Locke e seus sequazes põem em dúvida, pelo menos, se as almas não são seres materiais e perecíveis por natureza.

(Leibniz, Correspondência com Clark)



                 Presente em importantes obras de John Locke (1632-1704), religião, moralidade e tolerância são temas fundamentais e interligados cuja discussão alcançou grande relevância e deu ensejo a diversas polêmicas, as quais lhe renderam seus maiores desafetos. Nas teses defendidas por Locke, os laços que unem religião e moralidade versam sobre a orientação segundo a qual o fundamento da moral estaria ancorado na existência de um Deus e no culto a uma religião razoável. Está concepção de moralidade está bem clara em um fragmento que deveria ser adicionado ao Ensaio sobre o entendimento humano, intitulado Da ética em geral. Nesse texto, Locke defende que a moral deveria ser apresentada originalmente como os “(...) mandamentos do grande Deus do céu e da terra, e de acordo com os quais ele recompensaria os homens depois desta vida”[1]. Por sua vez, se o tema da moralidade está inteiramente ligado à religiosidade, como enfrentar toda a discórdia existente em nome da religião? Qual a responsabilidade do Estado e das religiões com relação à tolerância? 
           O problema passa a residir precisamente na intolerância existente entre os diversos credos religiosos, haja vista que se a moral tem seu sustentáculo na religião, temos então um grande problema a ser resolvido porque os credos religiosos existentes frequentemente se encontravam em estado de beligerância. Para aprofundarmos essas questões, três obras são exemplares. A saber, a Carta sobre a tolerância (1689), o Ensaio sobre o entendimento humano (1689) e a Reasonableness of christianity (1695). Concentraremos a presente investigação nesses textos porque entendemos que neles religião, moralidade e tolerância são temas tratados em seus diversos aspectos possíveis, os quais permutam da epistemologia à filosofia da religião, da educação à filosofia política. Além disso, essas obras permitem compreender quão intrincada é tal relação, bem como as nuanças das posições adotadas por Locke. Principalmente porque de certo otimismo Locke passa à desconfiança da capacidade humana de conhecer clara e distintamente a lei moral, fato que amplia a responsabilidade da religião como médium transmissor da reta moral.
           Com efeito, nosso objetivo é investigar a relação entre religião, moralidade e tolerância em John Locke na medida em que ambos os conceitos permitam divisar um aspecto central de sua filosofia geral, a saber: a centralidade do tema da liberdade de crença como participante do projeto geral de seu pensamento, o qual poder ser denominado como filosofia liberal



[1] Peter king, p. 307. 

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