terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Cultura ou Entretenimento?


Por, Sakay de Brito
(Historiador e membro da Direção municipal do PCB/Aju).




Este artigo trata da mercantilização da cultura popular através
de convênios realizados pelo Poder Público Municipal de Aracaju,
segundo auditoria divulgada pelo TCU em março de 2011.



A desigualdade social é caracterizada, sobretudo, quando um determinado grupo de pessoas detém poder econômico ou político. Outros elementos também compõem essa situação, como altos índices de criminalidade e violência, um sistema de saúde pública ineficaz, transporte público deficiente e com elevadas tarifas, o crescimento do número de famílias sem-teto, a falta de oportunidades no mercado de trabalho devido à má formação profissional etc. A desigualdade pode ser legitimada ou não. Isto é, pode ser aceita como uma condição natural dentro da sociedade por fatores ideológicos, como a religião e cultura, ou pode ser contestada por ser uma condição historicamente construída.
Esse problema já afetou diversas sociedades em épocas diferentes. Na Idade Moderna, um dos primeiros filósofos que diagnosticaram a desigualdade foi o suíço Jacques Rousseau que, no Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens (1755), relacionou a origem da desigualdade ao Contrato Social firmado entre os homens em torno da propriedade privada. Por sua vez, o filósofo alemão Karl Marx, na contemporaneidade, creditou a problemática da desigualdade à divisão da sociedade em duas classes antagônicas, de modo que, a desigualdade forma parte do sistema capitalista, por isso, os detentores do poder têm interesses em manter tal sistema social desigual. Dessa forma, uma sociedade marcada pela desigualdade econômica e social dá origem a uma elite econômica que financia o sistema político com o intuito de beneficiar-se com os recursos públicos gerado pelos trabalhadores, é a política do favorecimento. Esse sistema vicioso burocratiza o aparelho estatal que passa oferecer suporte para que a pequena, porém poderosa, elite econômica possa exerça seu controle e manter sua hegemonia. É assim porque a relação corrupção/desigualdade social necessita de meios e artimanhas para ser aceita pela grande maioria da população que é afetada diretamente pelas injustiças sociais. Como isso é possível? Para responder essa questão precisamos voltar um pouquinho no tempo e encontrar a receita de tal empreitada.
Na Roma antiga, o crescimento urbano desordenado ocasionou diversos problemas sociais e o Imperador Otávio Augusto temendo que a população se revoltasse devido à falta de emprego e exigisse melhores condições de vida, criou a política ?panem et circenses?. Este método era muito simples: todos os dias havia lutas de gladiadores nos estádios e durante os eventos eram distribuídos alimentos (trigo, pão). O objetivo era alcançado, já que ao mesmo tempo em que a população se distraía e se alimentava, também esquecia os problemas e não pensava em rebelar-se. Ao deslocar nossa atenção da Roma antiga para a Aracaju do século XXI, constatamos o mesmo triste quadro haja vista que com a prerrogativa de incentivar o turismo e o comércio da capital sergipana, explorando e fortalecendo os elementos históricos e culturais que valorizam ?nosso povo?, ou seja, a Sergipanidade; o poder político decidiu aliar-se ao projeto de alienação das elites e passaram a ?terceirizar? e comercializar o elemento substancial Cultura para usufruir da rentabilidade que esse negócio pode gerar.
Segundo o filósofo alemão Theodor Adorno, esse processo deve ser entendido como a Indústria Cultural, situação em que a cultura se torna um negócio, um produto a ser vendido. Enquanto negócios, seus fins comerciais são realizados por meio de sistemática reprodução e programada exploração de bens considerados culturais. O consumidor não precisa pensar ou refletir, é só escolher. É a lógica do clichê! Esquemas prontos que podem ser empregados indiscriminadamente só tendo como única condição a aplicação ao fim a que se destinam. Nada escapa à voracidade da Indústria Cultural.
Foi desta maneira que os últimos governos do Estado de Sergipe como também da PMA, com todo o apoio da Assembléia Legislativa e da Câmara de Vereadores, conseguiram estabelecer a situação ideal para a sociedade com os ricos. As instituições financeiras e os empresários ganharam uma influência política substancial, o que lhes permitiram influenciar o governo a seu favor, além de outorgar o entretenimento como elemento representativo da cultura popular. Dessa maneira, estilos musicais tradicionais são relegados ao ostracismo, juntando-se ao folclore e às artes plásticas, entre outros. Em troca, o governo prefere promover os musicais genéricos seguindo o modelo baiano de muito axé, suor e o apelo sexual do ?pagodão? ou do ?forró-elétrico? em detrimento dos grupos culturais e dos artistas sergipanos que sofrem com o desamparo de políticas em prol da categoria enquanto em eventos como o Pré-caju, cujo objetivo é promover a ?música? baiana, artistas recebem até mais de R$150.000,00 por uma única apresentação de acordo com a auditoria do TCU.
Ainda pior, caríssimos leitores, para realizar todo esse desfavor à nossa cultura o Pré-caju recebe volumosos investimentos e incentivos do governo estadual e municipal, chegando ao ponto da Câmara de Vereadores incluir o Pré-caju oficialmente no calendário turístico e cultural da cidade de Aracaju, através da Lei Municipal nº 1985 de 21/05/1993. Com isso, foi possível inserir o ?terceiro setor? na máquina administrativa através da sociedade com a ASBT, entidade constituída sem fins lucrativos pelos idealizadores da festa, os Sr. Lourival Mendes Oliveira e o Sr. Fabiano Oliveira. Em 1996, a ASBT foi reconhecida como entidade gestora e organizadora do Pré-Caju através da Lei Municipal nº 2.465 de 25/11/1996. Depois disso, a mesma foi agraciada com o Certificado de Utilidade Pública Estadual por meio da Lei nº 2.503 de 07/07/1997. E então, a referida festa começou a ganhar cada vez mais espaço na mídia e na política de nossa capital, impondo seu ritmo na vida de todos os aracajuanos, quer concordem ou não.
Até mesmo as festas de cidades de interior, festas religiosas, festivais de cultura, os blocos de carnaval de rua, tudo se torna refém da política da mercantilização cultural empreendida pela ASBT. Isso é tão evidente que segundo o relatório da mesma auditoria, a ASBT incluiu em seu esquema de desvio fraudulento até mesmo o ?Bloco do Rasgadinho?, tradicional bloco de rua criado segundo a memória popular na década de 60, tendo uma gloriosa e curta carreira (1962-1972). O antigo Rasgadinho teve ?fim? prematuro justamente pela falta de incentivo público em cultivar as tradições populares de Aracaju, mas era outros tempos, outra política; hoje a moda é promover com recursos sergipanos a festa e a música baiana. Com a fórmula mágica em mãos, a ASBT, aliada a empresários e ao poder público, conseguiu via convênios estaduais e federais resgatar o evento trazendo atrações de destaque nacional, logo tornando o ?Rasgadinho? o maior bloco de rua de Aracaju [segundo dados da PMA]. Elegeu o ?idealizador? Robson Viana vereador e criou uma base sólida de eleitores, afinal o povo não quer perder seus festejos tradicionais...
Precisamos valorizar nossa cultura e nosso patrimônio. É importante frisar que a desigualdade social não se dá somente no nível individual, e sua superação deve ser pensada sempre em um nível coletivo, de classe, com a união dos grupos explorados e oprimidos (sejam eles de trabalhadores, de mulheres, negros, homossexuais, sem-teto, artistas, músicos sergipanos etc.) voltando-se contra a fonte da exploração e da ideologização banal que se encontra na raiz da política sergipana.




Link: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2012/01/502333.shtml

3 comentários:

Helber disse...

Concordo com as críticas relativas a mercantilização da cultura popular, isto de fato existe. No entanto o AXÉ e o PAGODÃO são expressões musicais populares, e o mais importânte,de essência da cultura afro, trazidas pelos esccravos negros alocados em nossa região (Zona da Mata Nordestina). Logo os elementos que compõem esses gêneros musicais não são restritos ao território baiano. Conclusão,são gêneros que fazem parte da nossa cultura e precisam ter sua difusão e manifestação garantidas em fronteiras sergipana, além de serem respeitadas também. O que não podemos aceitar é a apropriação destas manifestações artísticas e culturais pelos empresários do setor de entrerterimento. Acho que esta é a grande questão a ser discutida, preconceitos e discriminação contra AXÉ e o PAGODE culminam na discriminação do negro e dos filhos da classe trabalhadora que fazem arte atravém destes gêneros musicais.

Maíra Magno disse...

otimo texto, ja pesso permição para usar em sala de aula, tenho outro ponto d evista para expor mais meu sobrinho esta aqui e entre ele e vc, ele ganhou, amanha eu continuo ok?

Maíra Magno disse...

Bem saulo, como uma análise sociológica, ela esta extremamente pertinente, porém o ser humano não é só sociedade, há questões da própria fisiologia das emoções que contribui e muito para assuntos como estes.O ser humano tem uma necessidade fisológica de escapismo, vc não vai encontrar uma unica sociedade moderna ou primitiva, onde não haja um entorpecimento humano em grupo, seja este cultural, artistico, simbolico, quimico ou religioso. Claro que a sociedade de consumo usa esta caracteristica humana como uma forma de alienação e dominação, porém em maior ou menos escala, não há como fugir da "futilidade e da baixaria", se não vem de uma forma vem de outra.