segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A CONCEPÇÃO DE MILAGRE NA FILOSOFIA DA RELIGIÃO DE JOHN LOCKE

O texto abaixo é parte da pesquisa que venho desenvolvendo sobre a filosofia da religião de John Locke, e publicamos aqui uma pequena mostra em referência ao IV Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião que ocorre entre os dias 15-18/11/2011em Brasília.  


                                Introdução



O objetivo deste artigo é analisar a definição e a função dos milagres na filosofia da religião de John Locke. Seguindo esse propósito, a investigação tem como foco inicial a discussão sobre os milagres presente no Livro IV do Ensaio sobre o entendimento humano, lugar onde se encontra a primeira inquirição mais séria sobre tema. Assim, no Ensaio, o filósofo inglês defende que os milagres nos fornecem os fundamentos de certas verdades cuja certeza está necessariamente vinculada a algum milagre verdadeiramente comprovado. Tendo em vista essa orientação, problemas permanecem e versam sobre como podemos confirmar um milagre e quais verdades necessitam de milagres como fundamento. No segundo caso o problema pode ser resolvido com o auxílio à outra obra, sem tradução para o português, intitulada: The reasonableness of christianity. Nesta obra, Locke argumenta que os milagres feitos pelo Cristo tinham por finalidade atestar sua procedência divina e assegurar a verdade de sua revelação; um milagre consistiria no selo comprobatório da crença no Messias. 
Se os milagres seriam as provas exigidas para atestar uma missão divina, o problema dos critérios epistemológicos que permitem identificá-los sempre permanece. Sobre isso, propomos que a resposta para esse dilema deve ser buscada a partir da análise do pequeno tratado A discourse of miracles, escrito em 1702 e publicado postumamente em 1706[1]. Nesse texto, Locke define um milagre como um acontecimento sensível, acima da compreensão do espectador no que diz respeito ao curso estabelecido da natureza e, por essa razão, entendido como uma operação divina. No entanto, Locke reconhece que tal definição, presa à relação: milagre/espectador/curso estabelecido da natureza, traz consigo incertezas. Em primeiro lugar, as pessoas possuem conhecimentos diferenciados para julgar o que estaria ou não acima da ordem da natureza. Disso decorre, em segundo lugar, que frequentemente o espectador pode tomar por milagre um acontecimento que nada possui de extraordinário. Para evitar esses equívocos, Locke advoga que o milagre não é simplesmente um acontecimento que impressiona a mente do espectador, mas um evento que atesta a veracidade de um Mensageiro enviado para revelar a vontade de Deus. Dessa forma, só existiriam milagres quando a revelação tem por objetivo comunicar aos homens as verdades da glória de Deus e os ensinamentos de grande interesse para a humanidade.
Com efeito, para levar a cabo essa tarefa, iniciamos contrastando o modo diferenciado como o tema dos milagres é tratado no Ensaio sobre o entendimento humano (1689) e em The Reasonableness of christianity (1695)  (I); em seguida, passamos a analisar os pormenores do texto Discurso sobre os milagres  (II); concluímos defendendo que o Discurso sobre os milagres concorda com a mudança metodológica nos fundamentos da moral iniciada com a publicação da Reasonableness of christianity  (III).



[1] A discourse of miracles encontra-se traduzido para o português desde 2010 e está publicado na coletânea de traduções organizada pelo professor Antônio Carlos dos Santos intitulada O outro como problema: o surgimento da tolerância na modernidade. São Paulo: Alameda, 2010, pp. 91-102.           

2 comentários:

Victor Carvalho disse...

Muito interessante, quero estudar isto também! (:

Saulo Henrique Souza Silva disse...

Pois é Victor, quem sabe no próximo projeto PIBIC JR. De repente, caso seja possível e se sua pesquisa estiver com qualidade, poderemos tentar a aprovação de um trabalho seu no V Congresso Brasileiro de Filosofia da Religião, provavelmente em Brasília ou Vitória.