domingo, 10 de julho de 2011

A Desventura do Nobre Poeta


Por, Saulo H. S. Silva


Como bem rimava aquele poeta.
Cantava sobre as belezas da cidade,
Sobre a virtude e a amizade.
Jamais esquecia de enaltecer sua amada,
Sempre rimando sobre seus belos cabelos e a macia epiderme.
Realçadas, todas as qualidades, pela luz natural da bela cidade.

Como rimava bem o sábio poeta!
Seus versos tinham por tema as belezas da divina criação;
Cantava com eloquência sobre a bela cidade entre o rio e o mar,
Sempre enfeitada pela mais formosa criatura por suas ruas a desfilar.

Ah! Mas a quem o sábio poeta enganava?
Na verdade mais parecia um cego!

Não percebia que por trás das belas fachadas e prédios históricos,
Escondiam-se doentes, mendigos e ladrões.
Quando questionado sobre a realidade,
A fome, a corrupção, sobre a loucura...
Sua resposta era clara:

“Ora, não me cabe rimar sobre os famintos,
Sobre os corruptos, sobre os assassinos, sobre os desvairados.
Poeta que sou enxergo apenas a beleza e a ordem;
Tudo quanto minha poesia se relaciona é belo e ordenado.
Canto sobre a cidade porque onde ando só vejo a sua beleza,
Rimo sobre a virtude, quem desconhece as benesses da amizade,
Do companheirismo e, sobretudo, do amor?
É por isso que não deixo de dedicar meus mais belos versos
À bela mulher que Deus me reservou”.

E assim seguia o poeta em seu ofício,
Cego e cabeça nas nuvens;
Até que o mundo não demorou de revelar sua outra face.
Não tardou que sua amada, cuja beleza não se despreza, ser cobiçada,
Muito esperta por outro homem ela o trocou,
E indo-se riu e disse:
“Você vivia num conto de fadas, mas agora o sonho acabou!”

Foi assim que o nobre poeta caiu na real!

A vida já não era um conto de fadas
E o desgosto tomou a alma do poeta.
Passou a rimar sobre o pessimismo,
Tudo se tornara feio e corrupto;
O mundo expressava dor
A salvação era a fuga da existência.

De otimista a pessimista
O poeta não deixou de ser doente.
Da cega crença no amor à sua doentia desesperança,
Dos elogios à vida ao seu total desprezo.
Ou Belo ou Feio,
Alegria ou Tristeza...

Com a mesma eloquência de outrora se exprimia o poeta:
“A vida que comporta o Bem não suporta o Mal,
Se na vida incidi o Mau o que há de Bom logo se afasta!
E a existência já não revela a ordem,
Tudo é feio e descompassado,
É a desordem...!”

Em sua poesia nem um traço de realismo.
Sua visão sempre totalizava o mundo,
Antes este era apenas beleza, agora é só feiúra.
Perdido no véu diáfano da fantasia
Sua alma desprezava a realidade, escondia-se da verdade,
Não percebia que na vida o Bem e o Mal andam de mãos dadas
Percorrem a mesma estrada,
Seguem o mesmo caminho!

Nenhum comentário: